O Brasil vivia um processo de reorganização das forças da sociedade civil e de retomada da participação popular, quando o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, propôs, junto com o professor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, e o engenheiro de Furnas André Spitz, uma mobilização para envolver as empresas estatais na campanha de combate à fome.

A ideia para criação do COEP surgiu durante um encontro com dirigentes de organizações estatais, convocado por Betinho e realizado, em maio de 1993, no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Estiveram presentes representantes de diversas empresas, entre elas Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal, Chesf, Finep, Fiocruz, Furnas, Embratel, Embrapa, Petrobras e Serpro.

Durante a reunião, Betinho sensibilizou a plateia apresentando os dados do Mapa da Fome – um levantamento feito pelo Ipea o qual indicava que naquele momento havia 32 milhões de brasileiros na indigência. “Estatal não é governamental. Ela tem um capital público e precisa ter um processo decisório público. O defeito da nossa democracia é fazer com que as empresas estatais sejam empresas do governo”, ressaltou. Ao final, ele lançou um desafio aos dirigentes das empresas presentes: nós da sociedade civil já estamos organizados e gostaríamos que as empresas também se engajassem nisso.

 

 

Logo depois da fala do Betinho, Marcelo Siqueira, que era o presidente de Furnas naquele momento, propôs a criação de um comitê das estatais e convidou Betinho para ser o coordenador.

Assim, em agosto de 1993, 33 dirigentes de empresas, federais e estaduais, fundações e autarquias reuniram-se para formalizar a criação do COEP. Surpreso com a adesão dos dirigentes das estatais a sua convocação, Betinho afirmou: “sem medo de exagero, pode-se dizer que foi a primeira vez na História que as empresas do setor público se reuniram para atuar em comum e produzir sinergia em nome da solidariedade”.

Uma rede de redes

Originalmente, o COEP era denominado Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida, pois reunia apenas empresas estatais. Depois passou a agregar também empresas e organizações privadas e a se chamar Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida.

Em 1994, também por inspiração de Betinho, a rede começou a se expandir com a criação dos COEP estaduais e municipais. Na ocasião, o sociólogo gravou um vídeo onde propunha uma articulação em rede por meio da instalação de comitês nos estados e municípios. Visionário, Betinho sugeria que a interação da rede poderia se dar via internet.

Assim, o COEP iniciou um processo de descentralização e chegou a contar com mais de mil organizações associadas, além de comitês em todos os 27 estados brasileiros e no Distrito Federal, e 34 comitês municipais.

Ao atuar com uma metodologia de rede, com estrutura descentralizada e gestão compartilhada, o COEP inovou no campo da gestão e tornou-se objeto de um estudo de caso de um projeto que envolveu vários países e foi organizado pelo Centro Europeu para a Gestão de Políticas de Desenvolvimento (ECDPM, na sigla em inglês). Os estudiosos classificaram o Comitê como “um híbrido curioso, por ser uma rede voluntária nacional que incorpora muitos aspectos de uma organização da sociedade civil”, operando, porém, “numa área fronteiriça entre o Estado, o setor paraestatal, a iniciativa privada e a sociedade civil”.

À medida em que se descentralizava, o COEP ampliava sua capacidade de apoiar iniciativas de desenvolvimento comunitário, promovendo articulações de parcerias entre organizações públicas e privadas para que somassem seus conhecimentos, tecnologias e recursos em prol de iniciativas de desenvolvimento humano e social. Surgiu, assim, a Rede de Comunidades, com atuação prioritária no semiárido nordestino.

Atualmente, a rede conta com cerca de 100 comunidades, onde aplica uma metodologia baseada em princípios participativos, de fortalecimento comunitário e de emancipação das populações atendidas. Entre as diversas ações que implementa estão: telecentros comunitários com acesso à internet; criação de animais de pequeno e médio porte; instalação de cisternas e de barragens subterrâneas; viveiros de mudas; hortas comunitárias; cursos profissionalizantes de jovens e adultos, além de ações educativas.

Mas além das organizações e comunidades, o COEP também passou a estimular o envolvimento das pessoas em iniciativas de promoção do desenvolvimento social e de defesa de direitos, dando origem, em 2004, à Rede Mobilizadores, que, atualmente, reúne mais de 45 mil integrantes de todos os estados brasileiros. É um espaço privilegiado para a troca de experiências inovadoras, discussão de questões relevantes para a área social, articulação de ações conjuntas, incentivo ao voluntariado e capacitação. Em sua plataforma na internet, a rede já promoveu mais de 50 oficinas abordando temas relacionados ao meio ambiente, à erradicação da miséria e aos direitos e cidadania. Em 2016, passou a oferecer também cursos gratuitos de capacitação em temas sociais, com emissão de certificados de participação. Até o momento, foram realizados 17 cursos online.

Assim, o COEP tornou-se uma rede integrada por outras três redes: de empresas, de comunidades e de pessoas e passou a ser conhecido como Rede Nacional de Mobilização Social.

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Comunicação e mobilização

Para articular essa rede que foi crescendo ao longo do tempo, era preciso manter a mobilização de seus integrantes e fazer a comunicação fluir, estimulando trocas de saberes e experiências. Para isso, o COEP contou desde o início com a internet. Foi uma das primeiras organizações na área social a lançar uma página na rede mundial de computadores, que posteriormente deu lugar ao Portal da Rede COEP, onde os comitês estaduais e municipais podiam criar suas páginas de maneira independente. Hoje, esse portal também dá acesso às outras redes desenvolvidas pelo COEP, como o Portal das Comunidades e a Rede Mobilizadores, além de reunir iniciativas e produtos lançados pela rede.

Tormentas Cariocas

Desde sua criação, em 1993, o Comitê de Entidades no Combate á Fome e pela Vida (COEP) vem mobilizando e articulando suas associadas e outras organizações e pessoas para o enfrentamento de problemas decorrentes de eventos climáticos extremos. Estas iniciativas abrangem desde ações pontuais para fazer frente a situações de emergência causadas por calamidades, como enchentes e secas, até a articulação de ações estruturais, de mais longo prazo, envolvendo diferentes parceiros.

Nesse sentido, em 28 de fevereiro de 1996, após as enxurradas que atingiram o Rio de Janeiro, deixando 6.500 desabrigados, o COEP articulou suas associadas para discutir um plano de ajuda aos atingidos pelas fortes chuvas de 15 dias antes. A proposta era também formular uma estratégia de longo prazo para futuras emergências. Foi assim que surgiu a idéia do seminário Prevenção e Controle dos Efeitos dos Temporais no Rio de Janeiro, organizado pelo COEP e pela Coppe/UFRJ, em agosto de 1996.

No evento, que reuniu técnicos, pesquisadores de várias universidades e institutos de pesquisa, políticos e militantes de ONGs, foram partilhados experiências e conhecimentos. Foram, também, criados grupos de trabalho visando à formulação de um conjunto de recomendações para apresentação às autoridades e à sociedade.

Todos esses trabalhos resultaram na publicação, pela Coppe/UFRJ, do livro “Tormentas Cariocas: Prevenção e Controle dos Efeitos dos Temporais no Rio de Janeiro”, com prefácio escrito por Betinho. A publicação foi distribuída para gestores dos municípios, representantes de órgãos públicos, do estado e dos municípios do Rio, ONGs, parlamentares e órgãos técnicos.

Tecnologias sociais

Com base no conhecimento adquirido e na metodologia que desenvolveu em sua atuação comunitária, o COEP estabeleceu uma parceria com a Coppe/UFRJ e criou, em 2011, o Laboratório Herbert de Souza de Tecnologia e Cidadania (LABetinho) que tem como objetivo contribuir para a geração de conhecimento no campo socioambiental, ao articular desenvolvimento tecnológico e inovação social. O laboratório foi instalado em uma área de 200 metros quadrados, no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Cidade Universitária, com apoio da Fundação Banco do Brasil, de Furnas e do Ministério da Ciência e Tecnologia. A proposta é aproximar cada vez mais os saberes popular e acadêmico, promovendo uma troca e a criação de soluções conjuntas para os problemas mais urgentes das comunidades e das pessoas de baixa renda.