Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

Há o tempo do silêncio e o da palavra. Se houve alguém com a dimensão da hora, esse alguém foi Betinho. Ele sabia sussurrar e gritar, com Rainer Maria Rilke, aludindo aos proibidos e silenciados: “Escuta a notícia ininterrupta feita de silêncio.” Sabia ouvir e nos fazer ouvir. Betinho, inquieto, libertário, nos seduzia e seduzia a nação, vivendo profundamente o cristianismo sem se considerar cristão.

Tinha algo de aço, pedra e suavidade nos seus olhos e nas suas palavras. Era o homem que conjugava bem coração e razão. Podia perguntar com o poeta inglês Auden: “Crianças com medo da noite/ Longe do bem e da festa?”, e buscar respostas. Virar o país atrás da solidariedade, essa sua sina e sua paixão. Dentre suas grandes batalhas, Betinho, tão urbano, incluía a Reforma Agrária. Era voz no deserto da indiferença, batia por um país justo também no campo.

Não posso me esquecer da noite em que promovíamos no Circo Voador o show musical Rio Maria Canto da Terra, em apoio à luta dos lavradores no sul do Pará, com Djavan, Chico, Caetano, Wagner Tiso e outros músicos fantásticos. Fui chamado inesperadamente ao palco. E logo em seguida Betinho apareceu, foi ovacionado. Eu devia dizer algo, agradecer, e estava inseguro. Ele me salvou: basta pegar o microfone e dizer – eu gosto de vocês. Isto basta. Esse, o Betinho. Conciso e terno.