Betinho, uma visão original

por Alfredo Laufer

Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

Conheci Betinho em 1988, quando foi convidado para ser o “Ouvidor”, ou Ombudsman, da Prefeitura. Era um momento de crise no Município do Rio de Janeiro. O prefeito Saturnino Braga enfrentava pressões fisiológicas por todos os lados, e não estava disposto a ceder às regalias exigidas por algumas facções políticas.

Na época, eu presidia a Riotur e me alinhava de corpo e alma às pretensões e ideias de tentar introduzir um novo pensamento e uma nova prática administrativa, onde todas as comunidades pudessem apresentar seus principais problemas, e cogerir as soluções juntamente com o Governo Municipal. Seria uma forma de levar a cidadania a todos os setores da sociedade.

É claro que ninguém melhor que Betinho, com suas orelhas gigantescas, e seus ouvidos incansáveis para todos os roncos dos estômagos das pessoas que passavam fome, poderia ser capaz de realizar esta façanha. De imediato propôs um grande evento para mobilizar os cariocas.

Lembro-me da primeira reunião (memorável) convocada por Betinho para trocar ideias sobre o assunto. Reunia alguns pesos pesados da intelectualidade brasileira: Ferreira Gullar, Dias Gomes, Affonso Romano, Pinguelli e outros. Nela, se traçou diretrizes sobre a forma de como o evento seria realizado.

Era impressionante ver aquela figura, franzina, delicada e risonha, se transformar. Quando falava, o seu entusiasmo tomava conta de todo o ambiente, e iam surgindo ideias, sugestões, etc., que me pareciam totalmente inalcansáveis e impossíveis de serem concretizados, apesar da forte dose de fantasia e otimismo que tomávamos, junto, é claro, com a indispensável cervejinha.

Depois de muita discussão, o grupo resolveu pela programação que seria realizada no Aterro do Flamengo, como o nome de “Se Liga Rio”. O evento de mobilização e congraçamento contaria com a presença de Chico Buarque, Caetano, Maria Betânia, Alcione, as escolas de samba da Mangueira e de Padre Miguel e um elenco de outros nomes, realmente fantásticos, do primeiríssimo time da música e arte brasileira.

Ouvia incrédulo que aquilo tudo pudesse ser concretizado. Mas, cheguei a quase total insanidade quando escutei Betinho dizer: “E aí, amigos, quando começar, ao cair da noite, e as luzes do Corcovado estiverem acesas, nós as desligaremos, e, alguns segundos depois, como símbolo de que até Cristo se ligou no Rio, iluminaremos Cristo com imensos refletores do Exército.”

Era demais para mim! Um pequeno empresário como eu, atolado em pequeníssimas dificuldades por todos os lados, e acostumado a pequenos desafios, não conseguia, de modo algum, ouvir o que me parecia totalmente lunático. Repliquei cuidadosamente: “Mas Betinho…como é que vamos convencer o Exército a levar as baterias de refletores para o morro? Como é que poderemos enfrentar toda essa guerra?”

Ao que ele respondeu: “Vamos conseguir, porque a cidadania vai falar mais alto!”

Betinho tinha razão. Tudo aconteceu conforme ele e seu grupo programaram. Corria nas veias de Betinho um sangue cheio de coragem, entusiasmo, e incrível sensibilidade – a indignação pela desigualdade.

Betinho tinha uma visão diferente. Às vezes, eu imaginava que era fruto dos inúmeros comprimidos que tomava. Com o tempo fui percebendo que era ele quem manipulava uma química muito especial. Ele conseguia, com seus pensamentos, com suas reflexões, transformar tudo e rapidamente.

Betinho nasceu e viveu globalizante, não conseguia conviver com as fronteiras de misérias, injustiças e fome. Rompia os limites da acomodação, da burocracia imperrante, da mediocridade e da mesquinharia pensante, com suas armas mortíferas: a simplicidade, o amor fraternal que emanava de seus olhos, a franqueza e clareza de suas opiniões desconcertantes. Em seu balanço de vida contábil só existiam ações, que provocaram grandes temores nos acomodados e pessimistas: as pertencentes às campanhas de solidariedade, jamais as reguladas pela competitividade.

 

By | julho 15th, 2017|Homenagem Betinho|Comentários desativados em Betinho, uma visão original