Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

Betinho era um homem misterioso.

Aquela simplicidade continha muitos mistérios. Era fácil ver que, homem muito sensível, ele sabia do sofrimento, já tinha sofrido muito. Mas isso muita gente já sofreu. O sorriso é que tinha significação inequívoca: a aceitação do Mundo, com todos seus altos e baixos.

Tem gente que percebe uma situação pelo que é dito e feito. Betinho não, era mais inteligente que isso. Não tinha muita importância o que estava sendo dito ou feito, ele SENTIA as situações.

Malandro, esperto, malicioso, oportunista, sempre engraçado, Betinho estava sempre a serviço. A serviço do bem. Um soldado do bem, um enxadrista do bem, um poeta do bem.

Mas o maior segredo não era nenhum desses e tem a ver com a sua Morte. Betinho sabia que ia morrer cedo. Viu a morte de perto muitas vezes… e superou, voou por cima disso.

Era um herói, portanto.

Sabia que, por uma série de circunstâncias não iria viver muito tempo. Que cada instante era precioso (como deve ser todo instante, na vida de todo homem).

Como é belo ver uma pessoa assim! Que não se importa com a sua sobrevivência, preferindo dar importância à sobrevivência de seus ideais!

Assim sendo, Betinho me ensinou muitas coisas, direta ou indiretamente.

Atrevo-me a enumerá-las.

Bem como narrar como o conheci melhor, em Maio de 1993, uma reunião de intelectuais e artistas pela Campanha da Fome, no restaurante Assirius, Rio de Janeiro.

1. Os homens são todos iguais. Todos gemem e morrem. Todos são felizes e infelizes e têm sede de justiça divina.

2. Existem os pobres e os ricos e há que estar sempre ao lado dos pobres.

3. A mente conservadora, ela impede revolução mais por ceticismo que por fascismo. Ela não acredita que o mundo possa mudar.

4. O governo, qualquer governo, é uma máquina velha demais, viciada demais, preconceituosa demais, deprimida demais, cética demais para fazer muita coisa.

5. No Brasil, há quinhentos anos ela vem sendo cuidadosamente armada para menosprezar o humano. E sua linguagem natural é a Corrupção. Estes são fatos, fatos, fatos. O governo é praticamente imponente na transformação social.

6. Quem ainda acredita na eficiência do Estado, a esta altura do processo, é um obsessivo.

7. Melhorar o Brasil não pode ser feito através das eleições, que são manipuladas.

Não pode ser feito através de violência, seria uma insensatez, a violência deles é maior.

O verdadeiro governo democrático somente poderá ser instituído no país através da sociedade organizada.

Se quisermos muda a sociedade brasileira teremos de fezê-los nós, os cidadãos.

8. O que é a Cidadania? É um sentimento muito forte que, vindo da solidariedade, nasce no coração dos homens, quando eles não enlouqueceram ainda.

Cidadania é a fé no óbvio: a certeza de que, se cada um cuidar do mundo ao seu redor, com justiça e dignidade, todos os problemas serão resolvidos.

9. Cultura e cidadania. É o mesmo. O verdadeiro campo de batalha do problema social não é Brasília, não é a cidade nem o campo. A luta real é travada nos corações e nas mentes.

10. Betinho me ensinou que a Cidadania é uma fé. Que ela é a poderosa única saída na senda apocalíptica pelo qual nosso Brasil enveredou.

Me ensinou também que nada que não é humano é digno de luta.

11. Betinho acreditou que unidos, aqueles que não querem ser felizes sozinhos, vencerão. Deu seu berro de solidariedade e calou fundo em muitos corações.

Para que lutemos cada vez mais pelo concreto e contra o abstrato, pelo imediato contra o longamente planejado, pelo hoje e não pelo incerto amanhã, pelos homens que sofrem fome e injustiça e não pelas cruéis ideias massificantes.

12. Minha avó dizia que um homem não deve se deixar levar pelo coração e sim pela cabeça. Minha avó é de outro século, era uma boba, não sabia nada de política.

Porque é justamente ao contrário. FH e seu governo estão se deixando levar mais pela cabeça que pelo coração.

É este seu crime. Este é “O crime moderno”.

Aquela noite fui parar no restaurante Assirius porque não tive outro jeito. A convocação era quase pessoal e assinada pelo Betinho e pelo Chico, não se recusa convites de gente assim.

Mas era um saco assim mesmo. Mais uma reunião política de intelectuais e artistas, provavelmente mais um manifesto para assinar, e só.

Quando sai do Assirius naquela noite eu tinha feito um amigo (Betinho) e assumido uma liderança (Organizados do Pessoal do teatro para a Campanha da fome) e nunca mais me desliguei do movimento. Que aconteceu aquela noite? – eu me pergunto e me parece difícil responder. No entanto tentemos.

Conheci uma cabeça política diferente, foi isso. Onde a lucidez combinava-se indissoluvelmente com a emoção. Uma cabeça política muito pouco interessada nas teorias e profundamente comprometida com as pessoas.

No entanto, havia uma teoria por traz, sem dúvida, simples e concreta como as leis de Newton.

Primeiro Betinho estabeleceu, naquela noite, que o mais grave problema não era a fome (!) e sim a indiferença em relação à fome. Sendo, portanto, um problema cultural, de responsabilidade e alçada dos homens da cultura.

Depois raciocinou que se cada um fizesse o muito pouco da sua medida, muito seria feito – o que também era irrefutável.

Depois, em 2 ou 3 palavras, ensinou como agir para melhorar o mundo: formar comitê com os amigos mais próximos, estudar e cruzar necessidades e recursos. Era a cidadania, vista de modo cristalino e em toda sua brilhante potencialidade.

E quanto à inflação, os Bid, os Pib, os ibopes das eleições – a política careta – conforme ela é exercida??? Sim, sem dúvida, tudo isso é importante, afirmava Betinho na sua calma de padre e por trás de um copinho de cerveja (eu tomava uisqui). Importante como segunda preocupação e linha de luta do Cidadão. Antes, a cidadania. Poderosa é a cidadania.

O que havia de novo naquelas ideias?

De alguma forma tão conhecidas e até repetidas? Por que tudo soava tão novo e revolucionário? Por que Betinho tinha alcançado a síntese! Em poucas palavras resumia o caminho da Utopia! Se nos uníssemos ali naquele momento poderíamos objetivamente e cada um, na medida de suas forças, melhorar o mundo!

Meu corpo estremeceu da cabeça aos pés. Eu não sentia nada parecido com aquilo desde o tempo dos hippies, quando a contracultura abalou o mundo com ideias semelhantes.

A “praticidade” de Betinho, a objetividade de seu coração, retirava magicamente varias camadas de pó das esquerdas clássicas e desmascarava a direita como força alienada, além de impiedosa.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu naquela noite, no Assirius. Através do sorriso do Betinho e de sua evidente sabedoria, desnudava-se o rei do método político convencional. A política caia de joelhos, para sempre, diante da Cidadania, como caminho para melhorar o mundo.