Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

A excepcionalidade do Betinho foi construir-se como um ser plenamente humano, embora as incríveis dificuldades que a vida lhe impôs pudessem encaminhá-lo para o rumo do “especial” ou “problemático”. Como disse o pastor Caio Fábio, Betinho nasceu casado com a morte mas tinha um caso de amor com a vida. E assim cumpriu sua existência, reagindo à hemofilia, tuberculose e Aids com politização, cidadania e solidariedade.

Betinho sempre desejou que o cotidiano, o banal, pudesse adquirir grandeza e transcendência. Assim, se ajudar o outro é um impulso de sobrevivência, quase instintivo, por que não organizar esse dom e transformá-lo em movimento coletivo? Pensar é próprio da condição humana? Por que, então, não desenhar um novo tipo de sociedade, que não esteja baseada no motor do lucro e da competição individualista? Quem faz a história somos nós, isso é sabido desde a Revolução Francesa. Betinho, revolucionário sempre, clamava por terra, participação e democracia para todos.

Assim, natural e humanissimamente, ele consumiu (iluminou) sua vida lutando pelo socialismo democrático, contra a ditadura; pela reforma agrária, contra o latifúndio improdutivo; pela redemocratização dos meios de comunicação, contra o monopólio da informação; pela justiça na distribuição dos bens, inclusive alimentares, contra o escândalo da opulência em meio à miséria, da fartura em meio à fome.

Betinho existiu com largueza, simplesmente. Foi sempre exemplar, na sua franqueza, no seu sonho, no reconhecimento dos erros, na busca dos acertos. Cidadão de Bocaiúva, do Rio, do Brasil, do mundo. Imitá-lo é preciso!