Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

Rio, 1980. Alguma noite de outubro/novembro, pois estava muito quente. Reunião no Cebrade – Centro Brasil Democrático sobre as perspectivas das oposições na luta contra o regime militar moribundo. Ao chegar, entro no elevador com um sujeito magro, esquelético; escuto-o dizer para a moça que o acompanhava: esse negócio de Estado é muito complicado, prefiro ficar com a sociedade civil… Pensei: mais um anarquista. Naquela noite travou-se, como é usual em reuniões daquela natureza, acaloradíssimo debate entre as diferentes matizes do vermelho – de um lado, nós comunistas, pacientemente costurando o entendimento possível, e de outro as diversas tendências que emergiam da clandestinidade, procurando se afirmar. Distante, quieto, fora do embate, o sujeito magro. Quando pediu a palavra, todos ouviram-no com respeito. Desenvolveu o conceito que eu já ouvira, levantando a bandeira da cidadania, dizendo que a construção da cidadania no Brasil havida de passar pelas pessoas comuns; disse ainda que naquela sala estávamos todos preocupados apenas com o Poder e não com as pessoas; finalizou dizendo que, como a questão do Estado era muito complicada, dedicar-se-ia às pessoas, à sociedade. Tacho-o de idílico, utópico, anarquista e mais outros tantos adjetivos ou rótulos, também próprios de reuniões daquele tipo. A reunião termina, como de hábito, inconclusiva. Formam-se as rodas de saída; aproxima-se de mim e Jó Rezende, então um dos principais líderes do movimento comunitário do Rio, trazendo consigo o sujeito magro; era o Betinho. Disse-me ele: precisamos conversar mais… e assim aconteceu, até que nos deixasse.

Conseguiu ele passar ao largo das quizílias que historicamente afastam umas das outras as correntes progressistas em nosso País. Fez do Ibase um centro de discussões abertas, descompromissadas de ranços ideológicos, livres. Reuníamo-nos, mensalmente, para discutir a conjuntura nacional. Esgrimíamos sempre. Depois jantávamos, para confraternizar e esclarecer este ou aquele ponto. Betinho, cidadão Betinho, promotor da cidadania e da sociedade civil. Betinho, sempre preocupado com as pessoas comuns. Este, o seu maior legado: o de transitar por todas as áreas da sociedade, pregando de modo simples a valorização do Homem, passando ao largo da disputa pelo Poder e das suas mesquinharias. Utópico, idílico, mas definitivamente não anarquista, pois a mobilização da cidadania é política passa pelo Poder, sim. Por isso, vimo-lo muito ativo, como uma das principais lideranças, em todas as lutas que mobilizaram o nosso povo das últimas décadas: as diretas, a Constituinte, o impeachment de Collor, a defesa do patrimônio público, e finalmente, a defesa da cidadania, contra a miséria, contra a fome e pela vida, que consagrou-o definitivamente com umas das maiores expressões humanas do nosso tempo.