Texto extraído do livro Mobilização: Betinho & a cidadania dos empregados de Furnas, de 1998.

Recebo atrasado o pedido de colaboração para este livro e por isso tenho que correr. Falar o que mais do Betinho? Fico me perguntando, enquanto estou dando uma olhada na televisão. Escrevi tantas matérias sobre ele, fizemos tantas entrevistas que eu não sei mais o que dizer.

Se ele estivesse aqui, tudo seria mais fácil. Daria uma passada no Ibase, tomaríamos uma cerveja, soltaríamos boas gargalhadas e certamente encontraríamos uma idéia de artigo – de preferência engraçada. O irmão do Henfil gostava de rir. Não só a hemofilia estava no sangue da família, o humor também.

Vou me lembrando de Betinho enquanto o jornal na TV continua mostrando mais um escândalo brasileiro. Dessa vez, o bandido de colarinho branco não é apenas ladrão, falsário, fraudador, cínico, mas também homicida. É o responsável pelo desabamento que matou oito pessoas e transformou em pó o sonho da casa própria de dezenas de famílias da Barra da Tijuca. “Ainda por cima”, diria Betinho, “o canalha é conterrâneo nosso, é de Minas”.
Eu aproveitaria para lhe pedir que me explicasse mais uma vez que país é esse em que há sempre um escândalo atrás do outro e o do dia é sempre pior do que o anterior.

Me sinto dividido: por um lado, querendo que o sociólogo estivesse aqui para escrever um artigo, dar uma entrevista, ajudar a gente com aquela sua lucidez incômoda e cortante. Por outro lado, me sinto dizendo “que bom que ele não está aqui”, para não sofrer, para não somatizar, como era de seu feitio. Quando as coisas pioravam, ele parecia piorar também.

Pego na estante uma pasta com artigos de e sobre Betinho. É uma espécie de dossiê que se recebe quando vai entrevistar alguém no programa Roda Viva, da TV Cultura. É de dezembro de 96, quando Betinho foi entrevistado e eu estava orgulhosamente entre os entrevistadores. Foi uma noite emocionante: houve um momento em que ele chorou, e todos nós tivemos que nos esforçar para não chorar também. Guardei todo o material com carinho.

Vou lendo os recortes. “O Brasil também tem fome de ética”, diz ele num artigo. Fernando Henrique ainda era ministro e reclamava de não ter dinheiro. Ele então escreveu: “o dinheiro está aí nas barbas de todo mundo, saindo pela porta da corrupção”. E propôs, bem à sua maneira, com ousadia e humor que o dinheiro que a CPI do Orçamento estava encontrando em contas particulares sofresse um processo de lavagem.

“Esses bilhões de dólares que o país já dava como perdido devem se transformar não apenas num instrumento eficaz de combate à fome e à miséria, mas devem ser utilizados também e principalmente em nome da solidariedade da cidadania”.

A sugestão continua valendo. Por que não fazer o mesmo agora? Por que não sequestrar todos os bens de Sérgio Naya e transformá-los em casas e apartamentos para aqueles que ele, criminosamente, desabrigou? Ele declarou ter mil imóveis no Rio, 5 mil em São Paulo e uma fortuna calculada em R$ 200 milhões. Seria uma exemplar distribuição de renda.

Mais uma vez Betinho tinha razão. Naquela proposta, estava contida uma sugestão perversa como uma piada do Fradim do Henfil: em vez de tentar mandar os corruptos para a cadeia, providência praticamente impossível no país, por que não tentar se apoderar do que eles roubaram? O exemplo seria mais eficaz. Qual a vantagem de ser corrupto se está arriscado de perder todo o dinheiro depois?

Vou folheando as matérias e encontro “Uma lição de vida”, a primeira grande entrevista que fiz com ele, de página inteira para o JB, meio que apresentando para os leitores “o irmão do Henfil”. Ela é do dia 13 de setembro de 1987, quando ele tinha 52 anos.

Na abertura escrevo: “Ele e seus dois irmãos – o humorista Henfil, 42 anos, e o compositor Chico, 30 – são hemofílicos e portadores do vírus da Aids”. Explico que em Chico a doença já se manifestou e que em Henfil já há um sepcemia. “E Betinho aguarda, com uma desconcertante coragem, a manifestação da doença, o que pode ocorrer, como ele anuncia: “hoje ou daqui a cinco, seis anos”.

Releio a entrevista inteira e concordo com o título que dei: realmente que lição de vida! Dá vontade de citar aqui todas as suas respostas, mas não teria nem espaço nem tempo. Só uma. Quando lhe perguntei que cuidados deveria ter uma pessoa num estado de saúde como o dele, a resposta foi a seguinte:
“O principal remédio é manter o horizonte da esperança. Por isso eu me recuso a dizer que sou um condenado e que a Aids não tem cura. Me recuso até a dizer que é um desastre (…) E me recuso sobretudo a aceitar o estigma, a internalizar o anonimato”.

Não só não aceitou o estigma e nem o anonimato, como transformou a luta contra a Aids numa heróica batalha nacional, a exemplo do que iria fazer também contra a fome, a miséria, a impunidade e todas as iniquidades do país. Como Betinho era inquieto! Como mobilizava a gente! Como agia, como agitava, como polemizava, como provocava! E como irritava também!

As matérias vão passando: “Betinho ataca empresários de SP e governo”, “Betinho defende lei agrária”, “Betinho lança movimento pela ética no Judiciário”, “Betinho relata ação contra a fome na ONU”, “Betinho pede afastamento de Maia”, “Idéia de Betinho cria polêmica e divide o Viva Rio”.
Paro nesta última matéria porque vivi mais de perto o episódio. Foi em 1996, quando Betinho foi enredo da escola de samba Império Serrano e desfilou com uma tarja preta no braço em sinal de luto pelas 68 vítimas das chuvas naquele verão.

Mas isso não era suficiente. O desfile foi comovente, Betinho recebeu muitos aplausos e saiu do sambódromo pedindo o afastamento do então prefeito do Rio, César Maia. Na sua opinião, o prefeito tinha sido omisso e irresponsável por não tomar providências contra o deslizamento das encostas.

“Ele pode ser declarado pródigo e ter um tutor, ser declarado insano e internado, ou então responsabilizado criminalmente numa forma de impeachment”.

Era evidente que o Viva Rio, do qual Betinho fazia parte, não podia encampar uma proposta tão drástica. Rubem César, coordenador do movimento, teve que fazer muita ginástica diante dos repórteres para não desautorizar o amigo, mas também para não dar força a uma idéia que iria tumultuar a campanha de ajuda às vitimas e prosseguimento do Reage Rio.

Além do mais, os amigos sabiam que o doce Betinho usava essa retórica radical, aparentemente intolerante, quando precisava chocar ou produzir efeitos políticos eficazes. O que ele queria naquele momento era verbalizar a indignação popular e sobretudo dar um puxão de orelha no prefeito omisso. Isso não podia ser feito com conselhos brandos ou com críticas amenas.

Além do mais, ele sabia tudo de imprensa. Por ocasião de sua morte, mandei a ele um bilhete em que dizia: “Você, que nunca foi jornalista, manipulou o mecanismo da imprensa como nem todos nós juntos. No início cheguei a ouvir: “mais velho do que a fome só o Betinho”. E em pouco tempo você fez de si novidade e da fome, notícia. Se impôs e nos pôs a serviço de sua causa. Aliás, pôs todo mundo: nós, os políticos, os artistas, os jogadores, os empresários, o governo”.

Se no meio do Carnaval ele acusasse o prefeito de irresponsável, não conseguiria mais do que uma nota. Mas pedir o seu impeachment daria manchete, como deu.

Se ele estivesse aqui a gente não estaria nessa impotência diante de tantas tragédias e mazelas. Betinho aprontaria alguma coisa. O prefeito, o governador, o presidente não sairiam ilesos dessa.

Há muito mais o que ler dele, o que contar, o que conversar, mas falta tempo e sobra saudade. Além do mais, é melhor cortar esse papo antes que ele fique piegas.

É, amigo, não dá pra não sentir a sua falta.